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          Ana Z. 
          Aonde Vai Voc?

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Impresso Braille, em 2 partes,
na diagramao de 28 linhas por
34 caracteres, da 12 edio,
So Paulo -- 2006
<F+>

           Primeira Parte

           Ministrio da Educao
           Instituto Benjamin Constant
           Av. Pasteur, 350-368 -- Urca
           22290-240 Rio de Janeiro 
           RJ -- Brasil
           Tel.: (0xx21) 3478-4400
           Fax: (0xx21) 3478-4444
          E-mail: ~,ibc@ibc.gov.br~, 
          ~,http:www.ibc.gov.br~,
          -- 2007 --
<p>
          Editor
          Fernando Paixo
          Assessora editorial
          Carmen Lucia Campos
          Preparao de originais
          Ruth Kluska Rosa

          ISBN 85 08 04335 x

          Todos os direitos reservados
          pela Editora tica.
          Av. Otaviano Alves de Lima, 4400
          CEP 02909-900
          So Paulo, SP
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Internet: ~,www.atica.com.br~,
 ~,www.aticaeducacional.com.br~,

          -- 2006 --
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                                I
Sinal Aberto
 Para
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 Ana Z. Aonde Vai Voc?
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  De repente, voc encontra uma velha tricotando um fio de gua e, adiante, um homem azul montado num camelo. Voc pode pensar que se trata de um sonho e belisca o prprio brao... 
  Espantado, descobre que no est dormindo e que as imagens que v so reais. 
  O que aconteceria se a realidade se revelasse mais fantstica do que a imaginao?
   a partir de uma situao comum que Ana Z.  personagem principal deste livro mgico de Marina Colasanti  descobre-se numa circunstncia extraordinria, onde o absurdo e o inesperado se tornam possveis. 
  E ela verdadeiramente no est sonhando... 
  Embarque nessa aventura surpreendente junto com Ana, para conhecer um mundo de mltiplas e incrveis possibilidades. 
  Descubra como, atravs da literatura, se interpenetram sonho e realidade na vida de uma menina que est crescendo. Ao final do livro, leia tambm uma entrevista em que a escritora fala sobre sua vida e sua obra.

  O fundo do poo. Pode existir alguma coisa alm dele?  o que Ana Z. vai descobrir, realizando uma viagem fantstica e conhecendo paisagens e figuras inslitas. Neste romance mgico, voc vai acompanhar a trajetria de Ana por caminhos inesperados, rumo a um final surpreendente. Com ele, Marina Colasanti expe de modo sensvel as emoes e angstias da adolescncia, e o simbolismo do mundo  nossa volta.
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                             III
<R+>
 Marina Colasanti  jornalista, escritora e artista plstica. Em sua obra, destacam-se o grande cuidado com a linguagem e 
  a preocupao com outras dimenses da realidade.
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          Para Daniela Colasanti,
          Minha sobrinha

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                                V
Sumrio Geral

 Primeira Parte

Ana Z. :::::::::::::::::::::: 1 
 Comeando do fundo ::::::::::: 4 
 Toupeira Quase cega, 
  quase muda :::::::::::::::::: 9
 Muito ouro, sem 
  tesouro :::::::::::::::::::: 13 
 Esse lugar  de 
  morte :::::::::::::::::::::: 22 
 De gro em gro 
  Ana avana :::::::::::::::: 36
 Um desejo de muitos 
  desejos :::::::::::::::::::: 45
 Onde ela se meteu? :::::::::: 52 
 Quem conta um 
  conto :::::::::::::::::::::: 58
 Mais cara que um 
  camelo ::::::::::::::::::::: 70

 Segunda Parte

 De vento em popa :::::::::::: 83 
 De vento em vento ::::::::::: 91
 A cidade sem igual :::::::::: 95 
 O que os olhos no 
  vem :::::::::::::::::::::: 110
 Um salto rumo s 
  estrelas :::::::::::::::::: 122 
 A Ao imprevista ::::::::: 125
 Era uma vez o oeste :::::::: 131 
 De volta ao comeo ::::::::: 135 
 O fundo recomeo ::::::::::: 141 
 enFIM ::::::::::::::::::::: 146
 Entrevista com Marina 
  Colasanti :::::::::::::::: 148
 Obras da autora :::::::::::: 157

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<Tana z.>
<T+1>
Ana Z.

  Esta histria comea com Ana debruada  beira de um poo. Acho que chegou ali por acaso, mas no posso jurar. No sei nem mesmo se o poo est num campo, ou num jardim. A verdade  que no sei nada da vida de Ana antes deste momento. Sei que a letra Z  do seu sobrenome, mas ignoro as outras letras. Desconheo tudo o mais a respeito dela. Eu a encontro como vocs, pela primeira vez, menina  beira de um poo, em que agora se debrua.
  Ana quer ver a gua no fundo.  provvel que quisesse at ver o seu reflexo. Mas no v. Por mais que olhe, v s uma escurido redonda e comprida, como um tnel em p. E nenhum brilho l embaixo. Ento cospe, para ouvir o barulho do cuspe batendo na gua.
   talvez para ouvir melhor que inclina a cabea um pouco de lado e estica o pescoo. Mas nesse gesto... plaft! O colar de contas brancas, contas que eu vi bem antes dela se inclinar, e que so de marfim, cada uma entalhada no feitio de uma rosa, prende-se no boto da blusa, e parte-se. Num instante, uma aps a outra, como meninas em fila ou gotas de choro, as contas caem na escurido do poo. E Ana, sem tempo para reagir, v cada conta tornar-se uma mancha branca, depois manchinha branca, ponto branco, pontinho, branco nenhum.
  L embaixo, nada se mexe. Nem Ana ouve qualquer barulho de gua.
  "Meu colar!", pensa com fora, quase pudesse pesc-lo com seu desejo. Meio que chora, meio que olha em volta procurando soluo. Pois soluo tem que haver para colar to querido.
  J vai esfregar os olhos para com a lgrima apagar a ardncia, quando estes vem os degraus, e no querem mais saber de esfregao. No so degraus de verdade, feito os da escada da casa de Ana. So degraus de ferro, escuros de ferrugem, cravados como alas nas paredes do poo. No tm um ar muito animador, nem muito firme. Mas  por eles que Ana pode ir buscar as contas do seu colar.
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  Vamos descer com Ana. Devagar. Passar uma perna por cima do poo, testando o degrau com o p, o corpo ainda metade para fora metade para dentro. Agora a outra perna. Cuidado. A beira do poo  escorregadia, as paredes so cheias de limo. Ana no sabe se suas mos esto suando, ou se  a umidade dos degraus, mas segura firme. Os ps tateiam. O corao est muito mais apressado que ela. Um degrau. Outro. Mais um.
  -- Afinal -- diz Ana baixinho, tentando minimizar a descida --, um poo  s uma chamin ao contrrio.
  Depois dos cinco primeiros degraus, sente-se mais confiante. No em relao ao poo, mas em relao aos degraus. J sabe que eles agentam, pode descer. S no sabe o que a espera l embaixo.
  Descendo, enquanto cuida de manter o medo quietinho no fundo do estmago, Ana perde a conta dos degraus. Sabe que so muitos. Olha para cima, procurando ter uma idia da distncia. V, dos lados, o escuro do poo, a boca l no alto, redonda, luminosa. E,  medida que desce mais, e mais, o escuro parece crescer, a boca vai diminuindo. At ficar redondinha e pequena, espcie de lua clara em negro cu. Ana est justamente olhando para ela, quando o p, j acostumado com os degraus, leva um susto. De repente, tocou o cho.

<R+>
Comeando do fundo
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  Com os dois ps no cho e as mos ainda nos degraus, para poder fugir depressa se for preciso, Ana tenta ver alguma coisa ao redor. Est tudo to preto, que a princpio no consegue enxergar nem mesmo seus ps. Porm, aos poucos, os olhos se acostumam. E como se a lua l no alto tivesse sado de trs de alguma nuvem, Ana comea a entrever a presena de uma pessoa sentada.
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  -- Ol -- diz a pessoa, com a delicadeza de quem acha perfeitamente normal ver uma menina chegar ao fundo do prprio poo.
  -- Oi -- responde Ana, que agora distingue claramente uma senhora de cabea branca.
  Por cima do seu tric, a senhora sorri. Empunha duas agulhas vermelhas, grandonas, e o fio sai de dentro de um balde. Ana estranha. Por que o balde? Mas a pergunta que Ana trouxe consigo l de cima no agenta esperar, e pula na frente, antes de qualquer outra.
  -- Por acaso, a senhora viu as contas do meu colar caindo aqui embaixo? -- pergunta com sua voz mais gentil.
  -- Ahhh!? Eram contas?? -- desapontada, a senhora deixa cair o tric no regao. Olha para cima, como se pesquisasse aquele distante pedao de cu. E diz para si mesma: -- Que pena... --. Depois, para Ana: -- Pensei que fosse granizo. Fiquei to contente!... A gente bem que precisava de um pouco de granizo -- suspira pensativa. -- H tanto tempo no chove.
  E logo, voltando a sorrir: -- Mas se so contas... devem estar por a no cho, devem ter rolado. Procure, menina, procure que voc acha.
  De ccoras primeiro, depois de quatro -- que se dane a sujeira nos joelhos --, Ana vai passando a mo pelo cho, buscando as manchas mais claras, recolhendo, uma por uma, as rosas de marfim. J tem tantas na palma esquerda, que nem consegue fechar os dedos. E nenhuma mancha branca brilha mais na escurido. Ento senta-se e, enfileirando as contas, tenta recompor o colar.
  Mas por mais que ajeite, que conte e torne a contar, no h dvida, est faltando uma. E logo a mais bonita, a maior, aquela que ficava bem no centro, a que ela gostava tanto de alisar com o dedo.
  -- Falta uma! -- exclama, quase pensando em voz alta. 
  A senhora, que j havia retomado seu tric, pra outra vez, observando a decepo de Ana. Que pergunta:
  -- A senhora no viu...
  -- No, minha filha, no vi no, eu estava tricotando... Mas, se no est a, s pode ter sido um dos peixes... achou bonita, engoliu.
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  -- Peixes??? Cad peixes, se no tem gua nenhuma? 
  E Ana olha em volta, naquele poo seco, quase querendo comprovar o que disse.
  -- Pois a  que est! -- exclama a senhora, contente de poder enfim desabafar. -- Eu falei, voc nem prestou ateno... Aqui no chove h muito, muitssimo tempo. E meus peixes, coitadinhos, j no tm como viver. Estou tricotando para eles este ltimo fio de gua que guardei no balde mas...
  -- Tricotando gua!?
  -- Claro, menina. Voc no tem idia de quantas coisas se podem fazer com um fio d'gua. Parece pouco, mas no . D para um bom cobertor, fresquinho, limpinho... No tem nada melhor. Sobretudo para peixes. E no rasga, sabia?
  -- Mas onde esto os peixes? -- pergunta Ana, mais interessada na sua conta do que na utilidade de um cobertor d'gua.
  --  isso, eles no quiseram esperar eu acabar... Foram por ali, nessa aginha do fundo -- e a velha senhora aponta atrs de si.
  Ana olha para o cho. Aginha, exatamente no se poderia dizer.  pouco menos que um filete, pouco mais que uma umidade. Mas para peixes espertos, talvez... Ana acompanha com o p aquele molhado, anda alguns passos de olhar cravado no cho, no fosse perder a tal aginha ou pisar em algum peixe retardatrio. E eis que, de repente, quando eu j estava com medo dela esbarrar na parede do poo, damos de cara as duas com uma abertura em arco, em que no havamos reparado antes por causa da escurido.  a entrada de uma espcie de longo corredor, de onde sopra um ventozinho frio como um outono.

Toupeira quase cega, 
  quase muda

  Adiante parece at mais escuro que o resto. Mas Ana agora enxerga que nem gato. E, se tem medo, a vontade de ir em frente  muito maior. Esticando o rosto, quase a farejar o desconhecido, abaixa-se um pouco, passa pela abertura, comea a avanar.
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   diferente aqui. As paredes, em certos trechos, parecem talhadas na rocha, so speras, empoeiradas. O cho  cheio de pedras, de buracos, completamente irregular.  preciso cuidado para andar. E, por todo lado, estacas de madeira escorando o teto e as paredes obrigam Ana a se abaixar, se esgueirar.
  "Melhor", pensa ela, querendo assoprar nas brasas da sua coragem que ameaam se apagar. "Se est escorado, pelo menos no cai na minha cabea."
  Mal acabou de pensar. ploft! Um torro de terra cai bem perto do seu p. Sobressaltada, Ana pula para trs. A altura mesmo dos seus olhos, um buraco apareceu na parede. Um buraco pequeno, de beiras saltadas, que parece mover-se, vomitando um resto de lama e cascalho. E de onde surge primeiro uma patinha, depois, repentino e rpido, um focinho de tou-
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 peira.  um instante, logo ele se recolhe. Mas Ana viu o plo, o nariz barreado.
  "Aonde ser que ela vai?", pergunta-se Ana, imaginando o contnuo trabalho daquelas patinhas, o focinho forcejando no estreito escuro.
  "Ser que tem pressa de chegar a algum lugar?", pergunta-se ainda. "Talvez  toca dela, ou aos filhotes. Ou ser que ainda  solteira e s cava, correndo, correndo, porque  toupeira e a nica coisa que sabe fazer  cavar?"
  Bem que Ana gostaria de estar em uma daquelas histrias em que os animais falam, cheios de sabedoria. Poderia ter ento uma bela conversa esclarecedora, aprender tudo sobre a vida e os sentimentos das toupeiras. Mas no est, a toupeira j sumiu. E ela prpria tem mais o que fazer adiante.
  S ento se d conta de que no se despediu da velha senhora. Olha para trs, tentada. Seria uma boa desculpa para voltar, desistir da procura.
   frente, o tnel serpenteia, tentador. Brilha fraca, no fundo, uma claridade.
  "Bobagem", pensa Ana, sentindo crescer a vontade de explorar. "Ela estava to interessada no tric, nem percebeu que eu sa. De qualquer jeito, vou ter que voltar por aqui mesmo. No demoro, falo com ela depois."
  E continua em frente.
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  Logo percebe que a luz no vem do fundo -- o fundo talvez esteja longe. Vem de uma curva.
  Tac, tac, vem tambm da curva um estranho barulho. Ana engole em seco, como se estivesse com sede. "A gua", pensa, "faz mesmo uma falta enorme aqui embaixo. E no s para os peixes". Caminha, vai chegando cada vez mais perto. Tac, tac, faz-se mais alto e spero o barulho. Ana est quase chegando. Levanta uma perna, demorando bem mais que o necessrio, para passar por cima de uma estaca. Depois, lentamente, bem lentamente, o mais lentamente possvel, vira a curva.
  E quase esbarra num mineiro.

<R+>
Muito ouro, sem tesouro
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  Que  um mineiro ela sabe no ato; porque est sujo como um limpador de chamins, porque usa aquele capacete com lmpada na cabea e, sobretudo, porque est com uma espcie de picareta na mo, tirando pedaos da rocha.
  E, no exato momento em que sabe que  um mineiro, Ana percebe tambm que aquele estranho corredor  simplesmente um brao de mina.
  Tac, tac. Ento era este o barulho. A ponta de ferro da picareta batendo na parede de rocha. O mineiro trabalhando, com aquele solzinho porttil na testa, tirando pedaos das tripas da terra.
  O solzinho vira-se para Ana, quase a ofusca, o homem diz qualquer coisa, Ana no entende direito, v o brilho dos dentes -- como brilham no rosto to preto de p! Depois o solzinho se desloca, e de novo, tac, tac, a picareta na pedra. O mineiro voltou ao seu trabalho.
  -- Ol -- diz Ana, respondendo a qualquer coisa que ele possa ter dito, embora ele no parea esperar resposta.
  Durante algum tempo, Ana acha graa em ficar olhando. Olha com os olhos, enquanto com a cabea conversa para dentro. O pensamento dela no vai em linha reta, bem-comportado. Pula do que est vendo para o que est sentindo, volta para o que est vendo, faz perguntas, d respostas, vai e vem. E o tempo todo empurra ela para falar, e recomenda-lhe que fique quieta.
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  O pensamento de Ana conversa com ela mais ou menos assim:
  "Ele vai acabar dando com essa picareta no dedo... Ser que  difcil picaretar?... Eu sou  boba!", o pensamento ri de alvio e superioridade. "Com tanto medo, achando sei l o qu, que depois da curva tinha monstro, assassino... Mina de que ser esta, que s tem ele aqui?... Ser que ele sai de noite para dormir, ou a casa dele  aqui mesmo?... Casa sem cozinha?... E assim sozinho... Carvo d em mina? Essa pedra  to preta, parece mesmo carvo. Mas pedra no pega fogo que nem carvo, nunca vi ningum botar pedra na lareira ou no fogo... Se eu perguntar, vai achar que sou enxerida... Eu no falei que ele ia acertar no dedo!? Tambm, com esse troo pesado... Mas bem que eu queria perguntar de que que  essa mina, e o que ele est fazendo aqui, e por que no tem outro com ele trabalhando junto, e..."
  Ana nunca tem certeza, com essa coisa de fazer perguntas. Nunca sabe direito quando  para perguntar, e quando  que vo achar que est se metendo onde no  chamada. Ela tem sempre tantas perguntas para fazer. E chamar, chamar de verdade, ningum chama. Ento acaba se metendo assim mesmo.  uma perguntadora autnoma.
  -- Essa mina aqui  de quem, hein?
  Pronto, Ana no resistiu. Nem podia, j que no fez fora para resistir. Mas o homem no parece incomodado com a pergunta. J chupou o dedo amassado -- coragem dele, botar um dedo to sujo na boca! --, e agora est examinando o pedao de pedra que tirou.
  -- Como, de quem ? -- levanta a cabea olhando para Ana.
  -- Quem  o dono?  voc?
  -- Dono? Que idia! -- sacode a cabea, e o solzinho vai pra c e pra l, como se estivesse balanando na ponta de um fio. 
 -- No tem dono no. Quanto mais eu!  -- sorri com a idia, depois fica srio. -- A mina est aqui. Eu estou aqui. S isso. Eu estou aqui porque sou mineiro, e os mineiros trabalham nas minas.
  --  mina de qu?
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  -- Ouro. 
  -- Ouro?!?!?!!!!!!!!
  Ana se espanta. Primeiro porque sabe que ouro  precioso, preciosismo. Ningum fala em ouro como fala de qualquer outra coisa, ningum fala em ouro sem botar pelo menos um ponto de exclamao.!. Segundo, porque nunca viu um ouro to diferente. O ouro que ela conhece  o das jias da me e o do relgio do av, aquele relgio que ningum usa, nem o av, e que vive trancado numa caixa, no fundo de uma gaveta, seno roubam porque  de ouro.
  -- Tem certeza?
  -- Ora, garota, olha aqui -- o mineiro estende o pedao de rocha para Ana, joga um sol do meio-dia bem em cima dele.
  Ana v uma coisa que brilha, l dentro, fininha, que pode ser do sol, que pode ser o ouro, mas que Ana tem certeza, ah! tem, que  to bonito quanto o relgio do av.
  -- E para quem voc vende?
  -- Voc  esquisita mesmo! Que negcio  esse de vender? No vendo para ningum, no.
  Olha para ela, e Ana repara que os olhos so limpos, no rosto sujo. "Olho no  que nem orelha", pensa ela, " um bocado difcil de sujar. A gente usa o dia inteiro e nem lava no banho!". Mas j ele continua:
   -- O ouro no  para vender.  para os peixes. Para fazer as escamas deles.
  E, diante da expresso de incredulidade de Ana: -- Como  que voc quer que eles tenham escamas douradas, se ningum pegar o ouro para eles?
  Os peixes, de novo. Ana quase tinha se esquecido deles. Em voz alta continua o interrogatrio:
  -- Eles precisam desse ouro todo?
  -- Quem disse que eu tiro todo? S tiro o que eles usam.
  E quanto ser que eles usam? E como ser que ele faz as escamas? E o que acontece com as escamas depois que um peixe morre? E quanto demora um peixe para morrer? Peixe tem doena? Existe remdio para peixe????? Ana est to cheia de perguntas, que o peito parece comichar. Mas j que no pode perguntar tudo o que quer saber, pergunta apenas o mais importante.
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  -- Voc viu os peixes passando por aqui a caminho de algum lugar?
  --  claro que ele no viu, como  que podia ver, se estava de cara para a pedra, trabalhando?
  -- E no ouviu nada?
  Ouvir como, se peixes no falam nem fazem barulho? Mas que ela no se preocupe, no podem ter ido muito longe, sem pernas e com essa falta de gua... E tambm, aqui no tem muitos caminhos, s aquele. E aponta. Tudo o que ela tem que fazer  ir em frente, procurando nas poas, nos molhados.
  -- E voc, como  que vai fazer, se os peixes foram embora? Vai trabalhar para quem? -- pergunta ainda Ana.
  -- No foram embora. Foram s at algum lugar, procurar gua. Acontece, nas secas. Depois voltam. Eles precisam tanto de mim, quanto eu deles. Eu espero.
  Agora Ana poderia muito bem ir atrs dos peixes. No tem mais razo para ficar ali. Mas faz que vai, e no vai, porque um desejo enroscou-se no seu tornozelo feito uma corda, e no a deixa sair.
  Hesita. Abaixa o queixo no peito. Depois levanta a cabea e, numa arrancada, libera o tornozelo:
  -- D uma escama pra mim?
  O mineiro pra, desconfiado.
  -- Pra qu?
  -- De lembrana.
  -- No posso. Mesmo. Aqui no se desperdia nada. No se tira nada que no se vai usar.
  -- Desperdcio coisa nenhuma! Quem disse que no vou usar? Lembrana  muito mais til que escama. Vou usar a vida toda. Juro.
  -- Jura?
  Que bonito o sorriso do mineiro! Ele se abaixa, abre uma caixa de ferro to escura quanto a pedra, cheia de gavetinhas. Abre uma gavetinha. Estende a mo para Ana.
  Na palma, um brilho quase transparente, uma agulhada de ouro.
  -- Cuidado para no perder.  escama de rabo de filhote.
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  Uma coisa ainda prende Ana. Um desejo mais. J que vai atrs dos peixes, ser que o mineiro no teria outra lmpada igual  dele, para lhe emprestar?  pedir muito, ela sabe, mas no vai demorar, j j volta, e seria to mais fcil com aquela luz.
  O mineiro, que fica sempre ali sozinho, anos a fio sem conversar com ningum, j se sente amigo de Ana, quase ntimo. E por que no emprestaria uma lmpada a uma amiga ntima?
  Assim, capacete luminoso na cabea, escama de filhote no bolso, Ana se despede, e segue caminho.
  Aos poucos, tac, tac, o rudo, que recomeou, esmaece, vai ficando para trs.

<R+>
 Esse lugar  de morte
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  E j no se ouve, quando Ana nota que o teto est ficando cada vez mais baixo, as paredes cada vez mais prximas. To baixo e to prximas, que no h mais estacas. Ana se abaixa, caminha um pouco, colando bem os braos no corpo. Se abaixa mais ainda, avana quase de ccoras naquilo que agora virou um tnel apertado, ou uma espcie de funil. Com nojo, sente teias de aranha colando nos cabelos, encolhe o pescoo buscando a proteo da gola. "Pareo um sapo", pensa. E nem bem encerrou o pensamento, percebe que o aperto acabou, nenhuma ponta fria roa mais nas suas costas. Ana saiu em algum lugar. O negrume  o mesmo, mas um espao maior abriu-se ao seu redor.
  Um cheiro diferente, mais seco e sem mofo.  a primeira coisa que Ana percebe. E calor. Aqui  bem mais quente, abafado. Com lento cuidado, enquanto se pe de p. Ana levanta a cabea, para iluminar em volta.
  O raio de luz do seu capacete salta para dentro da escurido, se estica todo, vai se movendo desimpedido como uma vara.  to bonito, que Ana d uma balanada na cabea s para v-lo desenhar o escuro. E, num susto,  o corao de Ana que balana e salta dentro do peito, esbarrando nas costelas. Por um instante, o raio bateu num vulto branco.
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  Ana se encolhe toda, esconde a luz contra o cho. Mas por mais quieta que fique, o ar parece sair do seu nariz com barulho de ventania, e ela tampa o nariz e abre a boca, e agora  o sangue batendo na sua cabea que faz um barulho, um barulho to grande que ela tem certeza de que o vulto branco est ouvindo, e avana para ela, e vai ach-la, vai agarr-la, vai, vai, vai.
  Ana abraa seus joelhos com tanta fora que os braos doem. Est quase sentindo a mo do vulto, a garra do vulto, cravando as unhas no seu pescoo. Quase. Falta pouco. Pouqussimo. Um momento s. Mas falta. Aquele momento passa. Fica faltando s mais outro. Mnimo momento. Que tambm passa. Nenhum passo se aproxima. Nenhuma garra se abate sobre a sua nuca. Ana espera. O sangue j no bate com tanta fora.
  Ento, bem devagarinho, Ana levanta a cabea. E, no vendo ningum ao seu lado deixa a luz procurar a presena assustadora.
  Primeiro, nada, s espao preto. Depois, uma mancha mais clara. Uma parede. E pronto! A luz bate nele novamente, no homem vestido de branco. Ana vira a cabea depressa, desvia a luz. Porm, sem tanto medo desta vez, conseguiu perceber que o outro est de perfil, e nem se mexeu para olhar para ela. Silncio. Nada acontece.
  S a luz de Ana comea a se movimentar. Percorre lentamente a parede, ilumina pequenos desenhos desbotados que no havia iluminado antes, e chega a dois ps calados de sandlias. Imveis. A luz e o olhar de Ana sobem pelos tornozelos, batem nas pregas brancas da roupa. Continuam subindo E eis que Ana ri sem risada, meio tremida por dentro de alvio e graa. No  um homem,  uma mulher, e no  gente,  uma pintura na parede.
  Agora que est quase alegre, Ana pode chegar perto para olhar. A roupa  comprida, meio transparente. Os ps esto virados para o lado, o rosto est virado para o lado. Ana j viu um perfil como aquele, com o olho to grande, maquilado de preto. J viu aquela franja grossa, o enfeite na cabea com uma serpente saindo bem no meio da testa. Mas no, no pode ser. Ana move a luz ao longo da parede. E ali est, pintado mais adiante, o homem que a assustou tanto. Vestido de branco ele tambm, com uma barba certinha certinha, saindo como um rabo da ponta do queixo, e o corpo virado daquele mesmo jeito. Sim, Ana j viu figuras assim todas de perfil, j viu nos livros, sabe muito bem de que gente se trata. Veio parar num museu? Mas no tem cartazinho em lugar nenhum, nem extintor de incndio, no tem tomador de conta, e o cho  todo escalavrado. No, no est num museu. Talvez ento... "Mas no, no  possvel!! No posso acreditar!", diz uma metade dela, enquanto a outra metade j est acreditando. E logo, espantadas, as duas metades se perguntam juntas: "Como  que vim parar entre os egpcios?!".
  A descoberta d um cansao to grande nos joelhos de Ana, que ela quase quer sentar. Ah! se tivesse algum com quem falar, algum a quem perguntar como e por qu.
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  Mas j que est sozinha, aproveita para iluminar mais ao redor. O teto, sustentado por umas colunas gordinhas, no  muito alto. As paredes so pintadas, cheias de sinais, figuras. Tem camponeses cortando trigo, mulheres tocando instrumentos, pessoas numa casa. Tem at crianas, ou umas pessoinhas pequenas.
  "Tivesse balo, dava uma histria em quadrinhos", pensa Ana divertida, acompanhando as pinturas.
  Pela porta, sem porta, ao fundo, Ana v que esta sala d para outra sala. Vai at l. Outras portas sem portas. Que do para outras salas. Todas parecidas, todas pintadas, todas vazias.
  "Ser um labirinto?", pergunta Ana a si mesma. "Mas labirinto pra qu?"
  "Ou ser uma tumba?!!!"
  Tumba, tumbaa, tumbaaa, repercute a palavra feito um eco na cabea de Ana. E l dentro o eco completa "sarcfago", "mmia".  justamente no momento em que o medo da mmia alfineta toda a pele de Ana. que uma das aberturas se ilumina, como se outra luz viesse vindo. e Ana ouve vozes.
  "Ladres de tumbas!", pensa, atropelada por novo susto. Isso tambm ela conhece, viu no cinema. "Caadores de tesouros!" So eles, certamente.
  Depressa, Ana apaga seu capacete. Rpida se esconde atrs de uma espcie de pedra.
  E as vozes vm chegando. Mais perro, cada vez mais perto. At que... click. A sala toda se ilumina de brilhante luz eltrica.
  Nessa luz inesperada que a faz piscar vrias vezes, Ana v dois homens, de camiseta e cala branca, como dois mdicos. Um  baixo, outro alto, um tem barba, o outro, bigodes. S um deles usa culos. E, apesar de diferentes, so muito parecidos. Como se tivessem ensaiado, abrem suas malinhas. Tiram pincis, potinhos, uma lupa. O da barba pega um banquinho alto que estava num canto, e sobe nele bem diante da parede, que comea a encarar. O dos bigodes remexe na malinha, tira um embrulhinho de papel cinzento, senta-se no cho. Olhando os gestos com que ele desfaz o embrulhinho, Ana sente que sua coragem est despertando e j se espreguia, pronta para reassumir. Pois ali, nas mos daquele homem, surgiu do papel tudo o que ela mais deseja nesse momento: um lindo sanduche de mortadela.
<21>
  -- J que vocs no so ladres de tumbas, o que so? -- pergunta Ana, saindo do seu esconderijo.
  Um potinho cai no cho, a dentada no sanduche fica a meio caminho, os homens olham surpresos para Ana.
  -- Llaaddrreess ddee ttuummbbaass??!!  exclamam os dois quase ao mesmo tempo.
  Depois, percebendo que afinal trata-se apenas de uma menina curiosa, o do potinho se refaz da surpresa, e acrescenta com ar superior: -- Isso no se usa mais.
  E o outro arremata:  No se usa, porque no tem mais o que levar, em tumba nenhuma.
  Ri o Baixinho:  Levaram tudo, h muito tempo.
  -- Ento, vocs fazem o qu?  a coragem de Ana destampou o perguntador.
  -- Estamos tratando da restaurao -- diz o Alto. 
  E Ana, contente de saber o que  restaurao:  Da tumba?
  -- Da cuca -- responde ele.
  Surpresa de Ana  De quem?
  Baixinho  Da nossa.
  Alto -- Estvamos meio esgotados.
  Baixinho  A vida entre os vivos  muito cansativa. 
<p>
  Alto  So barulhentos demais.
  Baixinho  E to metidos!
  Alto  O pessoal aqui  mais discreto  olha em volta.
<R+>
 -- E muito silencioso.
<R->
  Baixinho  Da, aceitamos esse trabalho.
  Alto  Conseguimos o patrocnio de um novo refrigerante.
  Ana, comeando a se irritar  Mas que trabalho? 
  Baixinho, como quem est repetindo uma obviedade  De restaurao.
  Ana, com ar esperto  Da cuca.
  Alto  No. Da tumba.
   muita restaurao para a cabea de uma menina. Sobretudo uma menina faminta, posta diante de um homem que afunda os dentes no seu po com mortadela. S a fome e o cheirinho de sanduche poderiam levar Ana a trocar um monte de perguntas por um nico pedido. Feito em voz baixa, encabulada, mas no menos convincente.
<22>
  -- Me d uma mordidinha?
     Retirado, de dentro da malinha, outro sanduche para ela, Ana senta-se encostada  tal pedra, tira o capacete para ficar mais  vontade.
  -- Cad a mmia? -- pergunta de boca cheia.
  -- No museu  responde o gordinho.
  --  onde todas ficam  explica o magrinho. E acrescenta, apontando com o queixo:  Antes ficava a.
  Ana, desconfiada: -- A, onde?
  -- A mesmo, onde voc est encostada.
  -- Nessa pedra?
  -- Pedra nada. Isso  o sarcfago, menina.
  -- De granito -- arremata o outro, querendo mesmo impressionar.
  O sarcfago! E ela ali, comendo sanduche como se estivesse numa lanchonete ou num piquenique. "Ser que  falta de respeito?", pergunta-se Ana, sem muita convico, mas desencostando do granito frio. E, em voz alta:  O dono era quem?
  -- O dono era uma dona  responde o primeiro. 
  -- Uma rainha  completa o segundo.
  Nunca Ana esteve to perto de uma rainha, mesmo morta, mesmo ausente. Como se no tivesse visto a sala antes, Ana olha em volta, uma reverncia toda nova conduzindo seu olhar. Certamente  ela a mulher de branco que, percebe agora, est pintada em tantos lugares. Jovem rainha de roupa pregueada, andando ao longo das paredes da sua tumba como andava nas salas do seu palcio. Onde andar agora? Morreu jovem assim? E o homem, aquele da barba, seria o pai? Ou o marido? A mar das perguntas ameaa inundar a boca de Ana, tomando o lugar do sanduche, que j est quase no fim. Mas, livre da fome, ela se lembra do que a trouxe.
  -- Vocs viram uns peixes passando por aqui?
  -- Peixes?!  pergunta o primeiro.
  -- Voc disse peixes?  insiste o segundo. Depois, como se a pergunta fosse corriqueira: -- Peixes, no. No creio ter visto nenhum peixe por aqui. Temos outros animais, se voc quiser  e aponta para as centenas de figurinhas pintadas na parede ao lado da rainha de branco, ordenadas fileiras da escrita egpcia.  Temos ali uma guia, mais embaixo um abutre. Serve esta lagartixa? Ou prefere uma coruja? Um cachorro talvez...
<23>
  Ana j no presta ateno. Bichos pintados de nada lhe adiantam. Olha para o cho,  mais seco que o da mina. Aqui, na certa, seus peixes no teriam por que se demorar.
  -- E por onde  que a gente sai? -- pergunta, vendo que o segundo j retomou seu trabalho.
  -- {v{voocc jj vvaaii?? -- perguntam os dois, novamente juntos.
  Sim, Ana j vai. Algum tempo passou desde que deixou o poo, deve ser noite. E a esta hora os peixes sabe l onde esto.
  -- Sai por ali  diz o primeiro.
  -- No tem como errar,  fcil  arremata o segundo.  Voc sai daqui, anda at ali, chega na primeira entrada  esquerda. No pega. Tambm no  a primeira  direita. O melhor seria ir pela anteprimeira...  um bom atalho. Seno vai em frente mesmo, mas no muito reto, at chegar num larguinho apertado...
  Ana percebe que  mais fcil perder-se nas explicaes do que no caminho. Despedidas feitas, comea pela direo apontada pelos dois.
  Daquela sala para outra menor, entrada  direita, no pega, entrada  esquerda, no pega, depois uma rampa, degraus, um corredor, vira pra c, sobe pra l, outra sala. "Ser que me perdi?", mais uma salinha. "Podiam botar pelo menos uma seta... Que caloro!", anda mais um pouco, outra rampa, Ana j est toda suada, pensa que  melhor voltar, mas tem certeza de que no seria capaz de achar seu rumo ao contrrio. Afinal, v l adiante um portal pequeno, este com porta. Fechada.
  Ana empurra a porta.
  E, de repente, como se recebesse um balde d'gua na cara, o sol se entorna em cima dela, um calor de fornalha lhe sobe pelas pernas, seus olhos quase se fecham barrando tanta luz. A sua frente, imensa ondulao dourada, desdobra-se em pregas macias o deserto.

<24>
De gro em gro 
  Ana avana

  O queixo de Ana no cai, porque est bem preso no rosto e, sobretudo, porque Ana nem abre a boca. Como toda vez que fica muito surpresa, faz exatamente o contrrio. Fecha apertados os lbios, para a surpresa no sair.
  E a surpresa, que vinha atropelando tudo, corpo adentro,  obrigada a parar diante daquela boca fechada, fica entalada na garganta. Ana mal consegue respirar. A engole, depois engole outra vez, empurrando a surpresa garganta abaixo, digerindo ela. At respirar de novo, normalmente.
  -- O deserto...  murmura Ana cheia de admirao, como quem repete o nome de algum importante a quem est sendo apresentado.
  -- Deseeeertoooooooooo!  grita em seguida, querendo impor a prpria voz quela imensido.
  Mas cada gro de areia parece sugar um pouquinho da voz de Ana, e o grito no corre, no ecoa. Cai logo ali, a seus ps. E some.
  Ana no sabe bem o que fazer. D alguns passos para a frente, pra. A tumba de onde veio lhe parece por um instante mais segura. Quase tem saudade da sua escurido. Vira-se, v duas enormes esculturas de pedra ladeando o portal, duas mulheres gigantescas com cabea de leo, que no tinha visto ao sair. Sente-se to pequena perto delas! Vista daqui, a tumba j no parece a mesma tumba, j no lhe oferece nenhuma intimidade. E dizer que ela teve tanto medo l dentro.
  "O medo, visto de fora", pensa Ana, "no  nem um tantinho igual ao que a gente sente por dentro".
  Agora, s lhe resta enfrentar o deserto.
  Ana olha, protege os olhos com a mo, aperta as plpebras para vencer a claridade, e atravs das frestas dos olhos vai se apossando aos poucos do que nunca havia visto antes.
  Dunas, areia a perder de vista. " como uma praia que no acaba nunca, uma praia sem mar" pensa ela. "Sem mar". A frase engancha no pensamento de Ana, que, sem saber bem por qu, repete "sem mar... sem mar...". At esbarrar no bvio: sem mar  igual a sem gua.  isso! Nessa secura toda, nesse imenso oceano em p, onde teriam ido parar seus peixes?
<26>
  "Ah! se precisasse apenas procurar uma agulha num palheiro, como seria fcil", pensa Ana desalentada.
  Est justamente se perguntando por onde comear, quando percebe que um homem com trs cabras vem vindo na sua direo.
  Como foi que no vi ele antes?", pergunta-se Ana. "Tambm, com essa claridade... Vai ver, estava atrs de uma duna.
  Seja como for,  uma pessoa a quem pedir informaes. E se aproxima...
  Agora Ana consegue v-lo melhor. Turbante na cabea, uma roupona at os ps, de mangas compridas tudo meio folgado, meio enrolado, meio marronzado ("como agenta tanta roupa com esse calor?"). Um cajado na mo. Deve ser um pastor pastoreando suas cabras ("como se pastoreia onde no tem pasto?"). Mas quando Ana j de sorriso pronto vai dirigir-se a ele, ele pra.
  "Por que ser que parou?" Vai Ana ao seu encontro, sem notar uma nuvem de poeira, ou de areia que se aproxima depressa, vinda l de longe.
  Arma de novo o sorriso. Desta vez o homem nem olha para ela, levanta os braos, agita as mos, faz sinal com o cajado. E a nuvem de poeira que vinha chegando pra com um barulho de ferragens desconjuntadas, se desfaz aos poucos, deixando ver um velho nibus, cheio de gente.
  O pastor sobe, empurrando as trs cabras para dentro. Ana hesita. Mas  melhor um nibus na mo, que dunas voando. E, se seus peixes foram a algum lugar, na certa no foram andando. Antes que o motorista d a partida, Ana tambm sobe.
  Senta-se l no fundo, no ltimo lugar, entre o pastor e uma velha que dorme. O nibus est to cheio de bichos, que parece uma arca de No sobre rodas. Galinhas numa cesta, cabras, cabritos e cabritinhos, um bode, mais galinhas numa bolsa, mais cabras, tem at uma espcie de raposa pequena com grandes orelhas, no colo de um rapaz. E talvez porque o nibus sacoleja tanto, ou porque parece que vai desmontar-se a qualquer momento, todos os bichos cacarejam, balem rosnam. E como cheiram! Ainda bem que as janelas esto abertas. Alis, pode ser at que estejam fechadas, mas o ar circula de qualquer jeito, porque as janelas no tm vidros.
<27>
  Ana quer falar com o pastor antes que ele tambm adormea. Quer perguntar onde esto, aonde vo, quer saber coisas. Cutuca-o delicadamente. To delicadamente que ele nem percebe. Cutuca-o de novo, com mais fora. Fora suficiente para que ele, que parecia estar conversando com suas cabras, a olhe de cara feia. E ento, com uma terceira tentativa de sorriso, Ana fala:
  -- Por favor, o senhor poderia me dizer...
  Mas assim como seu grito se perdeu no deserto, sua fala se perde agora na algazarra. O homem franze as sobrancelhas grossas num esforo para ouvir. Ana levanta mais a voz. O homem tampa os ouvidos com as mos. Ana repete mais baixo. O homem destampa as orelhas, franze as sobrancelhas e tambm o nariz. Uma cabra tenta subir no colo dele. Ana repete sua frase. Ele est ocupado enxotando a cabra. Ana vai repetir novamente, a cabra mordisca a mo dela. Ana desiste.
<28>
  Desiste de falar e fazer-se ouvir. Mas no desiste de pedir informaes.
  Vasculha no bolso da saia, encontra um cotoco de lpis. Papel, nem pensar. Olha em volta, no v a menor possibilidade de achar naquele nibus algo parecido. Ento estica o pano da saia, bem esticado, capricha no desenho de um peixe sobre o pano. Depois cutuca o pastor e mostra para ele.
  At que enfim, o pastor sorriu! No parece ter reconhecido o peixe, mas gostou da brincadeira. Tira o lpis da mo de Ana, puxa o pedao de pano que lhe sai do turbante, puxa mais, desenrolando um pedao, alisa-o, e desenha nele um lagarto, com escamas quase iguais s do peixe, mas um lagarto. Ana faz que no com a cabea, desenha outro peixe. O homem agora ri, francamente divertido. Arranca novamente o lpis, e desenha uma cobra, cheia de escamas, mas uma cobra. Ana faz que no com a cabea. O homem faz que no com a cabea. E ficam os dois balanando a cabea um para o outro, meio para dizer que no, meio acompanhando os sacolejos do nibus, rodeados pelos balidos das cabras.
  Ana decide que pedir informaes na primeira parada.
  As dunas passam l fora, todas iguais. O tempo passa ali dentro, todo igual. A cabea de Ana pesa pesam suas plpebras. Ana faz fora para no dormir, afinal, nunca esteve antes no deserto, quer ver bem, aproveitar tudo. Mas o calor  tanto, o cansao  tanto, que apesar do esforo  bem provvel que Ana tenha cochilado. Tem at a impresso de estar sonhando, ao ver surgir inesperadamente, alm da janela, palmeiras, rvores, arbustos floridos, o azul meio escondido de um lago. "Um osis!", grita seu corao em primavera.
  No nibus, ningum alm dela parece ligar para aquela maravilha de frescor. "Essa gente do deserto  estranha demais", pensa Ana. E se levanta, s ela de p em meio aos passageiros indiferentes que dormitam abraados a seus animais. Puxa a cordinha, faz sinal que quer saltar, vai passando por cima de cabras e galinhas. A raposa pequena olha para ela mexendo suas grandes orelhas. O nibus pra, envolto na nuvem. Ana salta.
  Sua boca risonha se enche de p, ela engasga. E quando acaba de tossir, o nibus se foi. Ana est sozinha diante do osis.

<29>
Um desejo de muitos desejos

  Atrs, as dunas.  frente, outro ondejar. De folhas, talos, galhos. que se dobram ao vento, danantes como guas. E surgindo ali, bem na divisa onde o deserto se aquieta e lambe o verde, uma enorme accia em flor.
  Estremecem as folhas, leves plumas, cintila ao sol o amarelo das flores. Ana nunca quis tanto sentar-se  sombra de uma rvore. Olha para seus ps, e os v afundados na areia. Olha poucos metros adiante e v a grama crescendo. E devagar, querendo que a sombra se pouse na sua pele como um plen, Ana vai andando at chegar junto ao tronco.
  Mas o ar continua quente, e por mais que Ana respire fundo para encharcar-se de cheiro de mato, seus pulmes continuam abrasados seu nariz parece guardar o cheiro abafado do nibus.
  Ana sua, sem entender por qu, sentada sobre a grama escaldante. Nem lhe chega o perfume das flores, ou o farfalhar das folhas. S ela, porm, parece sofrer como se ainda estivesse entre dunas. Os outros, as pessoas que v acudindo a seus afazeres naquele enorme jardim, parecem frescos e satisfeitos.
  "Que  isso, que estou com tanto calor?", pergunta-se ela, recostando-se contra o tronco.
  Mas, catrapum! Em vez do apoio do tronco, Ana encontrou o vazio e caiu de costas, batendo com a cabea no cho.
<p> 
  Levanta-se, olha, o tronco est ali. Estende a mo para toc-lo, a mo atravessa o nada.
  Ana aperta bem os lbios. Surpresa nenhuma vai sair da sua boca.
  Novamente estende a mo sem nada encontrar, e se levanta, d um chute no tronco, no h tronco, tenta pular para agarrar uma. folha s agarra o ar.
  E continuaria nessas tentativas, se no fosse interrompida por uma risada.
  Vira-se. Uma mulher gordinha, com um cntaro na cabea, est atrs dela.
<30>
  -- Qual  a graa?!  rosna Ana, sem coragem para estender a mo e (no) tocar na mulher.
  -- Nenhuma, desculpe.
  A mulher parou de rir. Sorri apenas, descansando o cntaro no cho.   que voc no sabe.
  -- No sei o qu?
  -- Que est numa miragem.
<p>
  Desta vez, no houve jeito de segurar os lbios fechados, e o espanto de Ana sai boca afora.
  -- Miragem?
  Sente o suor escorrendo pelo pescoo.
  -- Aqui as coisas se vem  diz a mulher , mas no so.
  Ana olha para a mulher, para o cntaro. Acha difcil acreditar.
  -- No fique a parada, com essa cara de espanto  diz a mulher.  Vamos at l em casa, no caminho eu explico.
  A mulher suspende o cntaro at a cabea.
  -- Eu disse miragem, para simplificar  vai falando enquanto anda, acompanhada de perto por Ana.  Mas voc vai ver,  uma miragem meio especial.
  Caminha mais um pouco com andar ondulante para no derramar a gua. E completa:  As coisas no so. Mas a gente faz as coisas serem.
  Agora elas vo entre tufos de leandros floridos. Ana quase trotando, porque s vezes pra, distrada por uma borboleta ou um pssaro, e no quer perder-se da mulher.
  -- Enfim  diz esta como se quisesse livrar-se de uma explicao mais complicada , voc est no osis do Desejo.
  Hibiscos, roseiras em flor, um tamarindo copado. Ana e a mulher passam por um homem que come tmaras. Adiante, outro rasga um po. Um menino puxa um burrico por uma corda. Um pavo passeia, exibindo sua cauda. "Ser que nada disso ?", pensa Ana incrdula. E em voz alta:
  -- E o que esse osis?
  Outra vez, a mulher ri.
  -- Ele no deseja nada, sua boba. Ele  o nosso desejo.
  Dessa vez, as coisas ficaram difceis de verdade para Ana. Que, porm, vai seguindo a mulher, com os braos bem colados no corpo, de medo de tocar em alguma coisa e ela no ser, ou de tocar e, de repente, ela ser, e confundir tudo mais ainda.
<31>
  Vai andando e reparando nas casinhas brancas, nas tamareiras, na lagartixa que sobe num tronco.
  -- Quer dizer que se eu desejar uma coisa ela aparece, que nem essa lagartixa?
  --  preciso mais do que isso.
  Porm Ana nem liga para a resposta, porque est comeando a gostar da idia, e se ocupa em desejar um sorvete de amoras, o maior sorvete de amoras que sua imaginao consegue criar.
  Deseja deseja, sente a boca encher-se d`gua, de tanto desejo. E nada. Capricha ainda mais no desejado. E ainda nada. Nenhum sorvete vem instalar-se na sua mo ou adoar sua lngua.
  Ana sente-se trada.
  --  mentira.  tudo mentira. Voc est falando tudo errado para mim  Ana tem vontade de jogar-se no cho de tanto desapontamento, e espernear, como quando era pequena.
  -- Calma. Ainda no acabei  e a mulher pra.
  Chegaram diante de uma casa, mas a mulher no levanta a cortina que cobre a porta, no faz meno de entrar. Vira-se para Ana.
  -- Um desejo s no d.  muito pouco. Se voc desejar uma coisa, em segredo, sozinha, e ficar esperando, vai ter que esperar a vida inteira. Mas se eu desejo muito ter dois camelos, e se voc deseja o esterco dos meus camelos para adubar sua roseira a fim de que cresa e cubra a parede da sua casa, e se seu hspede deseja que voc tenha uma casa para estar nela e que tenha a parede recoberta por uma roseira bem adubada para dar mais flores e tornar a casa mais fresca e mais perfumada, permitindo que ele descanse bem da sua longa viagem, ento eu terei meus dois camelos, que estercaro sua roseira, que subir pelas paredes da casa, que abrigar o hspede, que dormir  noite, que sonhar lanando as sementes de um novo desejo, irmo do desejo despontado em algum outro sonho para serem realizados no dia seguinte junto com outros, e assim por diante.
  Os olhos da mulher como que sorriem.
  -- Entendeu, Ana?  levanta a cortina, afasta-se para deixar Ana passar.  Agora, seja minha hspede.

<32>
<R+>
 Onde ela se meteu?
<R->

  Acompanhei Ana at aqui, entrei com ela na casa. Quando sentou-se no banco, temi que no houvesse banco nenhum, e ela casse no cho. Mas Ana deve ter desejado muito aquela casa, que a mulher tambm desejava, assim como a desejavam as andorinhas que abrigavam seus ninhos sob as telhas, e a roseira que lhe escalava a parede, tornando-a fresca e acolhedora. O fato  que Ana sentou-se. Vi quando comeu coalhada. E a ouvi perguntar.
  -- Como  que voc sabe meu nome?
  -- Sei, porque voc gosta que eu saiba. E porque eu no desejaria ter na minha casa um hspede de quem no conhecesse o nome.
  Vi Ana meter na boca mais uma colherada de coalhada.
  -- Aqui -- disse a mulher , todo mundo sabe o nome de todo mundo. Porque ningum deseja ser desconhecido.
  Tudo isso eu vi. Ainda esperei at mais tarde, at a hora de Ana ir deitar-se. S quando tive certeza de que dormia na cama estreita e limpa, deixei-a. E fui tratar da minha vida.
  Demorei mais do que pretendia, confesso mesmo que passei alguns dias sem cuidar dela, ocupada que estava com minhas prprias coisas. Quando voltei, no a encontrei mais l. Nem na cama. Nem na casa.
<p>  
  Onde teria se metido? Poderia perguntar  mulher, mas no gosto de conversar com qualquer personagem.
  Ento, sa  sua procura pelo osis. Sem grande aflio, porque no acreditava que Ana tivesse sado para o deserto.
  E porque no havia em mim ansiedade maior, pude me demorar entre as barracas do mercado, prestando ateno no que comerciantes e fregueses comentavam entre si, e  beira do riacho, onde as lavadeiras conversavam. Nada melhor, para saber dos passos de uma estrangeira, do que ouvir o que falam as pessoas do lugar.
<33>
  De fato, descobri at mais do que esperava. No mercado, um homem de manto listado disse para o vendedor de frutas:
  -- Belos limes tens a nesse cesto.
  -- Ah!  respondeu o vendedor ajeitando os limes , belos mesmo so os cabelos da menina da torre.
  -- Cabelos, cabelos... com to lindas tranas que tm as nossas meninas... No h de ser por causa dos cabelos que ela est l.
  -- Me contaram  e o vendedor inclinou-se segredando  que a voz dela  mais doce que essas uvas.
  Mas a o comprador distraiu-se com as uvas, provou uma e, entre cachos e balana, no disseram mais nada que me interessasse.
  Segui com os olhos uma moa bonita, de calas bufantes, o rosto coberto por um vu. Reparei que um jovem cameleiro tambm olhava para ela.
  -- Bonita assim, s no harm do Sulto -- disse ele em voz alta, quando a moa passou a seu lado.
  -- O Sulto nem vai mais para o harm... tem outra coisa com que se ocupar  respondeu ela, brejeira.  Dizem que na torre passa as noites em claro.
  -- Grande coisa  retrucou o rapaz , como ele, eu tambm passava.
  Adiante, trs velhas cochichavam.
  -- Ouvi dizer que o Sulto s tem ouvidos para ela  falou a mais encurvada.
  -- Tem o qu?  perguntou a mais enrugada.
  -- Ouvidos, ouvidos. Est surda?  quase gritou a encurvada, encurvando-se ainda mais.
  -- Faz ele muito bem  concluiu a mais desdentada. -- Quem tem ouvidos, oua! No  assim que dizia o Profeta? 
  E as trs sacudiram a cabea.
  As lavadeiras foram as que me deram mais informaes. Uma ensaboada e uma palavra, uma esfregada e uma frase, uma enxaguada e um mexerico,  assim que elas passam seus dias.
  E assim elas conversavam  beira do riacho, as palavras correndo de uma a outra como a gua entre as pedras:
  -- Eu queria  lavar a roupa dela. Dizem que  tudo fino e macio, s o mais puro linho e a mais rara seda.
<34>
  -- Voc ia arranhar os dedos nas pedras preciosas dos bordados, isso sim!
  Todas riram parando por um instante de bater as roupas.
  -- Parece que ela veio de muito longe, no  daqui.
  -- Grandes coisas... todos viemos de longe.
  -- No  daqui, mas aqui  que se deu bem. Vive no maior conforto.
  -- At torre tem pra ela.
  -- A torre foi o Sulto que quis.
  -- Nem foi por causa dela. Queria, faz tempo. Mas quem  que ele ia botar l? S essa menina, pra saber tanta histria.
  Dei um salto. Que negcio era esse de histrias? Quem tem que contar histrias aqui sou eu.
  Olhei em volta. Achar a torre do palcio no foi difcil. Mais alta que as tamareiras, s havia ela. Entrar tambm no foi difcil. No h guardas nem trancas nesse osis.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              
  Subi longas escadas em caracol. No alto, deitada sobre coxins, reencontrei Ana.

<R+>
 Quem conta um conto
<R->

  No est to diferente quanto pensam as lavadeiras. Nem est coberta de pedras preciosas. A roupa sim mudou. E o jeito dela, um pouco. Quando entrei, parecia uma menina brincando de princesa. E era.
  -- Ana, o que  que voc est fazendo aqui?!
  No resisti, falei com ela.  a primeira vez que lhe dirijo a palavra assim, diretamente. Mas tambm, ela passou dos limites. Dos meus, quero dizer.
  -- Voc no sabe? Pensei que fosse voc que tinha armado isso tudo...
  -- Eu?! Eu no estava nem a.
  -- Ento fui eu mesma, desculpe. Sempre tive essa vontade de ser princesa, de morar numa torre. Brinquei muito disso com minha amiga, sabia?  espera uma resposta que no vem, porque eu estou s olhando para ela.  Foi isso, esse desejo  pavoneia-se.  Acho que nem tinha torre nesse osis, Eu  que quis.
<35>
  -- S voc?
  -- Bom, quer dizer, coincidiu. Tinha esse Sulto, que tambm desejava muito ter uma princesa numa torre. E uma poro de gente, eu acho, que achava que ficava bonito, para um osis de miragem que nem esse, ter uma torre com uma princesa dentro, que nem essa. Combina, voc no acha?
  Eu no quero achar nada. Meu papel no  achar. Meu papel  ficar observando, anotando, escrevendo, sem me meter.
  -- E pronto. Agora ele vem me ver todas as noites. 
  No fao mais perguntas. No que no esteja interessada. Mas tenho outros meios de saber das coisas.
  Volto para o meu lugar, fico quieta, em silncio, deixando Ana esquecer que estou ali. E espero. Espero at a noite chegar.
  As cigarras aos poucos se calam, cedendo o silncio para os grilos. L fora, os vagalumes voam to baixo, que parecem lrios acendendo-se no escuro.
  E a lua ainda no saiu, quando um pajem entra carregando um grande leque de plumas brancas, outro pajem entra portando uma espcie de baldaquim. E o Sulto, com suas babuchas de ouro e seu manto de prata, chega  sala da torre.
  Os dois pajens saem correndo. S o Sulto fica, com Ana.
  Onde ser que Ana aprendeu a receber, com tanta delicadeza, um Sulto numa sala de torre? L est ela, fazendo-lhe uma pequena mesura, ajeitando os coxins. Vira-se para uma mesinha, e serve ch de hortel de um bule que -- estarei enganada?   igualzinho queles dos servios de ch de mentirinha quando a gente brinca de boneca. Mas o Sulto parece no se importar. Toma o ch segurando a ala pequena da pequena xcara, recosta-se, e diz:
  -- Ento, onde foi mesmo que ficamos ontem?
  -- Estvamos no ponto em que o lobo vai engolir a vov de Chapeuzinho.
  -- Ah!  isso mesmo, o lobo!
<36>
  O Sulto ajeita-se ainda mais profundamente nos coxins. E Ana comea a contar como o lobo engoliu a vov. E como, tendo feito a digesto, ps-se a pensar na sua vida de comedor de gente, chegando  concluso de que estava cansado do *menu* e mais ainda da ferocidade. "No fundo", disse o lobo na histria de Ana, "nasci para a arte". Nem para pintar, porm, nem para escrever, nem muito menos para danar. "Serei msico", estabeleceu. E tendo decidido seu futuro, deixou a casa da vov, tomando o caminho da cidade de 
 Brmen.
  Noite adentro, Ana conta para o atento Sulto o encontro do lobo com os outros bichos, burro, gato e galo, o abrigar-se de todos na casa da floresta, a fuga dos ladres que habitavam a casa. E a manh j est bafejando o horizonte, quando Ana chega ao ponto em que todos os animais decidem esquecer Brmen, e ficar na casa da floresta para sempre. Todos, menos o gato. Que...
  -- A manh j vem, Majestade. O galo, que no  o de Brmen, canta. Amanh eu conto o resto da histria.
  Um pajem entra correndo com seu grande leque. O outro pajem entra correndo com seu baldaquim.
  -- At amanh, Ana  diz o Sulto.
  E sai com os dois pajens, batendo de leve sobre o mrmore as babuchas douradas.
  Passa-se um dia. A noite vem. E na exata hora em que as cigarras se calam, entram os pajens. Clap, clap, anunciam as babuchas a chegada do Sulto.
  -- Onde  mesmo que tnhamos ficado?  pergunta ele educadamente, depois de tomar seu ch.
  -- Ah, sim... Deixando os outros animais atrs de si, o gato saiu ento pelo mundo. E estava ainda no comeo do caminho do mundo, quando...
  E enquanto a lua aparece por trs das tamareiras, Ana conta como o gato foi achado por um velho moleiro e levado para o moinho. E como o moleiro veio a morrer, deixando o moinho para o primeiro filho, o burro para o segundo, e o gato para o terceiro. Mas que gato! Um gato capaz de calar botas, falar e transformar seu dono no rico Marqus de Carabs.
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  Os grilos h muito se calaram. E o dia amanhece, logo no ponto em que o jovem Marqus de Carabs caminha para o altar com a filha do Rei.
  -- Os gatos do osis esto se espreguiando, Majestade.  dia. Amanh eu continuo a histria.
  -- Est bem, Ana. At amanh.  As babuchas vo batendo sobre o mrmore. -- Mas no se esquea de onde ficou  recomenda o Sulto antes de sair.
  -- Pode deixar, Majestade, conheo bem essa histria  responde Ana.
  E, mal acaba de falar, j est sozinha.
  Na noite seguinte, a narrao de Ana revela ao Sulto que, casado o Marqus com a filha do Rei, nasceu-lhes um lindo menino. E o menino da histria de Ana vem a ser aquele mesmo que, em outra histria bem mais antiga planta um gro de feijo e quando o p nasce sobe por ele at as nuvens. Mas, olhando pela janela atrs do Sulto, Ana, esta noite, mede suas palavras com cuidado maior que de costume. Quer acabar alguns momentos antes da chegada da manh, para poder falar de outro assunto com seu ouvinte cativo. Ento, antes que o galo cante, ela conta como o menino foge descendo pelo p e como o Ogre que morava l em cima vem correndo atrs dele e...
  -- Simpaticssima Majestade, o galo no poleiro j est levantando a cabea. Mas antes que ele cante, queria lhe perguntar: ser que no dava para esquecer aquele negcio do carrasco?
  -- Minha doce menina, voc sabe que no posso. O carrasco est pronto, s esperando a hora em que voc no tiver mais histrias para contar.
  -- Mas o senhor no deseja ver minha cabea cortada, deseja?
  -- Eu no. Mas ele no pensa em outra coisa. Est com aquela roupa de execuo, nova em folha, guardada h um tempo, com seu lindo capuz negro, o machado reluzente... Tem at um ajudante! E nunca, nunca carrasqueou ningum... Seja compreensiva.
  -- Compreensiva...  fcil ser compreensivo com a cabea dos outros.
  -- Entenda Ana, no  s ele. Fosse s ele, no tinha problema. Mas tem a mulher dele. A pobrezinha j avisou  famlia que o marido, finalmente, vai se exibir em praa pblica. E o filho, imagine, o menino nunca viu o pai trabalhar, tem at vergonha dele na escola. E o ajudante. E os parentes do ajudante. Todos querendo a mesma coisa.  demais.
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  -- Mas o senhor  o Sulto!
  -- Enquanto eles quiserem -- diz o Sulto de si para si. E, mais alto:  Eu sei, eu sei, foi culpa minha -- acrescentando logo, defensivo , minha e do Conselho! Quisemos ter um carrasco s para impressionar aquele Emir visitante, E foi nisso que deu.
  O galo canta l fora. Um raio de sol entra na sala da torre, os dois pajens j entraram h algum tempo. O Sulto se levanta.
  -- At amanh, Ana.
  -- Eu no quero morrer!
  -- Eu sei  o Sulto vai saindo.  Mas seu desejo s  muito pouco.
  Ana chora. Sem grande desespero, porm, sem grandes lgrimas. Pois ainda se lembra de uma poro de histrias, e sabe que pode emend-las, noite aps noite, para alegria do Sulto, e tristeza do carrasco. Tem tempo pela frente. E, no tempo, tudo pode acontecer.
  Noite seguinte, l vai Ana com seu ch retomar a histria onde a havia deixado, do Ogre que vem descendo pelo p de feijo e do menino que, chegando l embaixo antes dele, corta o talo bem junto da raiz, e da lanterna que havia roubado do Ogre, e que ele esfrega, e da qual sai um...
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  Contando a seu modo aquilo que ouviu contar tantas vezes nos modos dos outros, Ana cala botas de sete lguas e, quase sem se dar conta, vai atravessando as noites. At ter atravessado tantas. que uma manh, sado o Sulto, percebe ter acabado seu estoque de ogres, fadas, madrinhas, prncipes e princesas. Como seca um rio, secou a memria de Ana. E por mais que se esforce, no encontra dentro de si nem mais uma histria para contar.
  Desta vez Ana chora e chora, pensando no carrasco. Ensopa o cetim dos coxins. Quase ensopa o tapete. Chora tanto, que as lgrimas, como as histrias, secam dentro dela.
  Exausta, ainda murmura: O meu desejo vale. Vale sim". E adormece desejando, desejando com fora, no ser mais princesa, no estar na torre, sair daquele osis.
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  Ana dorme. No escuro do seu sono um vento comea a soprar. Sopra o vento, cada vez mais forte no sonho de Ana, agitando as ondas do deserto, engrossando as dunas. E o dorso das dunas est coberto de espuma vermelha como sangue, que sangue no . So as flores de Leandro, os hibiscos, as rosas todas que crescem nas paredes e nos muros do osis, paredes e muros que o vento, o mar e a areia vo levando de roldo.
  E quando o vento amaina e o mar se aplaina, Ana acorda. Est sozinha, vestida com suas roupas, deitada na areia apenas ondulada. Sem nada, nada ao redor.
  "Partiram todos?", se pergunta, "Ou ser que adormeci no nibus e sonhei?".
  Ao longe, uma caravana se aproxima.
  Ana espera um pouco, depois vai ao seu encontro. E, como havia feito o homem das cabras, levanta os braos agita as mos, fazendo sinal para que o primeiro cameleiro pare.
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  Com o gesto, uma flor de accia se desprende dos seus cabelos, volteando lenta at o cho.

Mais cara que um camelo

  Pra o primeiro cameleiro, ao sinal de Ana. Pra o segundo atrs dele. O terceiro pra. Com chamados, gritos, e aquele estranho grunhido dos camelos, pra, ondeante, toda a caravana.
  Ana olha para cima. Seus olhos ardem. V apenas uma silhueta escura, recortada contra o sol. Do alto, ele a observa, menina sozinha no meio do deserto. E sem que ela tenha dito nada, cutuca o pescoo do camelo com o p, fazendo-o dobrar os joelhos. O homem agora est  altura de Ana.
  Diante dela, dois olhos muito pretos.  s o que aparece daquele rosto. O resto, nariz, boca, testa, tudo est coberto por um pano azul, que se prolonga at a cabea, enrolando-se em turbante.
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  No so muita coisa dois olhos. Mas para quem est perdida no deserto,  procura de alguns peixes fujes, podem ser mais importantes que tudo. Dois olhos, e uma mo que se estende.
  Pela mo do homem azul, Ana sobe atrs dele, no camelo. Que susto quando o bicho se levanta num tranco sacudido, como se fosse jogar seus condutores para o alto! Mas o medo de cair e ser deixada para trs prende Ana na sela mais que as mos.
  Um grito do homem, repetido de boca em boca. E em meio a rudo de metais e couros se entrechocando, a caravana se pe novamente em marcha levando Ana.
  Para onde ser que vai?  a primeira pergunta que Ana se faz, depois de ter gasto o alvio por no estar mais sozinha. Para algum lugar, certamente, ela prpria se responde. E continua seguindo o fio do seu pensamento. Caravanas partem, e caravanas chegam. De lugares. De aldeias, ou cidades. At de osis. Mas sempre de onde h outras pessoas, para comprar coisas, para alimentar os camelos, para receber os cameleiros e os viajantes. O raciocnio de Ana parece lgico, tranqilizador.
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  "Caravanas", diz ainda para si mesma, "so como avies, levando gente e embrulhos e malas e coisas, s que pela areia. Mais seguras at que avies. Alm do mais se os peixes foram a algum lugar, no ficaram andando a esmo no deserto. Seguiram certamente as rotas das caravanas, e pararam ou passaram pelos mesmos lugares onde esta vai passar".
  Pensado isso, Ana acaba por tranqilizar-se de vez. Sua alma recolhe os remos, deixa-se levar. J que est no rumo certo, pode despreocupar-se.
  E Ana comea a tomar posse do seu novo lugar, olhando para trs para contar os camelos, sorrindo para o outro cameleiro estudando os desenhos na sela na qual est sentada, medindo as costas do cameleiro bem diante do seu nariz. Olha para os lados, alisa com o olhar os rastros que o vento deixou na areia. E porque seu pensamento est disponvel, lembra de um mesmo gesto feito em outra ocasio, quando sua mo alisou os gros finssimos de uma praia e ela pensou que, se fosse menor, pequena como um tatu, menor ainda, no acharia aqueles gros nada finssimos, acharia grossos, enormes, verdadeiras pedras entre as quais avanaria com dificuldade, escalando. A lembrana resvala, volta para perto, traz para Ana a recordao da sala da torre, to presente na sua memria como se ainda estivesse entre as dunas, com seus mrmores e suas sedas. E j to distante como se as dunas a tivessem soterrado.
  A partir deste ponto, o tempo comea a passar para Ana no ritmo das patas dos camelos. Sem pressa, ondulante, cheio de cintilaes, igual a um tempo de mar. E ser neste mesmo tempo que ela ir navegar em seus pensamentos esvaziados de qualquer urgncia, enfileirando um dia atrs do outro, como uma caravana de dias, at o ponto de chegada.
  Mas, entre cada dia, h a noite. E  quando o tempo no deserto muda, e as coisas acontecem.
  Nada lhe dizia que a noite estava se anunciando, naquele primeiro dia de viagem. O sol ainda no tinha se posto, mal chegava ao horizonte. Mas para os caravaneiros tudo parecia muito evidente. Em plena marcha, a ordem  gritada, todos param, ajoelham-se os camelos, os homens descem, comea o trabalho de desmonte. Aquilo que era uma linha sinuosa, espcie de longa serpente avanando organizada, desdobra-se. Cargas, embrulhos, volumes, cestas, odres so retirados dos camelos. E ningum diria que cada camelo pudesse carregar tanta coisa. Onde antes era silncio, incha a algazarra. Tudo  rpido, porque a noite tem pressa de chegar. As pessoas correm. Cada um tem seus afazeres. S Ana no tem nenhum, e se v quase esquecida, parada no rodamoinho de gentes e sons, sem saber o que fazer.
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  Se ela no sabe, sabem os outros por ela. Quando a noite enfim abre sua manta escura, as fogueiras esto acesas diante das tendas de couro vermelho, um cheiro de comida se arrisca no ar, algum tange as cordas de um instrumento.
  Ana no havia sido esquecida. Com o corpo todo ondeante por dentro como se ainda estivesse no alto do camelo, se v sentada diante das chamas, um prato de comida na mo, um cobertor de l sobre os ombros. A noite  fria no deserto. O calor da ateia dorme cedo.
  Naquela primeira noite, Ana pouco olha, pouco ouve. Repara apenas que todos os homens esto velados de azul, e que sua pele, o pouco que dela se pode ver,  morena. Mas est tonta de sono, e adormece depressa debaixo da tenda, acariciando a maciez de um tapete e pensando que aquela ondulao toda deve ser da gua do seu corpo, que ainda no se acalmou.
  Acorda com uma tigela de leite 	-- cabra? camela? melhor no pensar  na mo, enquanto a mesma agitao que montou o acampamento na noite anterior o desmonta. E, caravana em marcha, comea um novo dia.
  Mas na segunda noite Ana j se sente em casa. Pode ajudar, carregar, puxar as cordas para armar a tenda. Pode buscar seu prato, pedir o cobertor, e comear a fazer perguntas.
  No todas as que gostaria. Porque ela est aprendendo a se controlar. E porque seu anfitrio no  do tipo falante. Parece at que no tem muito para contar, e nada a explicar. Mesmo com perguntas longas e respostas curtas, porm, uma certa amizade comea a se estabelecer entre os dois.
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   por conta dessa amizade que, dali a algumas noites, Ana vai cair no seu velho vcio, e se intrometer onde ningum a chamou.
  Armadas as tendas, comido tudo o que havia nos pratos, limpado o fundo dos pratos com um resto de po chato como uma panqueca, h um bem-estar manso enroscando-se no acampamento. Conversas, um canto, rodas formadas por quem ainda no tem sono. E de uma dessas rodas um homem se levanta, vem sentar-se diante da fogueira de Ana, entre ela e seu anfitrio.
  Os dois homens conversam numa lngua que Ana no entende. Tomam vinho, riem. Gesticulam muito. Olham para ela uma vez, depois outra. E ento parecem esquec-la, entretidos que esto com suas prprias palavras.
   tarde quando o homem se vai. Mas a curiosidade manteve Ana acordada.
  -- O que  que ele estava conversando?  pergunta ao seu j quase amigo.
  -- Veio fazer negcio  responde ele sem encar-la.
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  -- Que negcio?
  -- Negcio importante  diz o homem, reticente.
  -- Qual?  Ana insiste.
  -- Coisa de homem.
  -- Que coisa de homem  essa?  a curiosidade empurra Ana com mais fora.
  -- Quer comprar voc  entrega ele afinal.
  Ser um erro, ou seus olhos brilham divertidos, por trs das pestanas?
  -- Me comprar??!!  Ana est to surpresa que se esquece de entrar em pnico.
  -- Ofereceu vinte camelos.
  -- Isso  muito?  pergunta Ana, que nunca antes tinha se avaliado em camelos. No fundo, mas nem to no fundo assim, sente-se envaidecida,
  O homem olha para ela com displicncia: -- Eu no dava -- retruca.
  Uma pausa. Curto silncio entre os dois.
  -- E pra que quer me comprar? -- volta Ana.
  -- Para casar voc com o filho dele.
  "Casar??!! O homem est louco! Eu no quero casar! Quero a minha me!", pensa Ana num susto. E grita: -- Mas eu sou criana!
  -- O filho dele tambm  -- rebate o homem com naturalidade.  Compra agora, casa depois. Garante o negcio.
  O medo comea a doer na garganta de Ana.
  -- Voc no vai me vender, vai?  pergunta sem certeza de querer ouvir a resposta.
  --  claro que no.
  Ana j est se refestelando na gratido, quando o homem azul acrescenta como se revelasse um segredo:
  -- Os camelos dele so muito magros.
  Depois ri, ri, batendo com a mo na coxa.
  Pobre Ana. E ela que se sentia a mascote da caravana!
  Dessa noite em diante, no tem mais sossego. Todos os dias, antes da caravana sair, vai para junto dos camelos do homem, apalpar-lhes as canelas, verificar se esto engordando. E  noite, escondida, tenta tirar a pouca comida que lhes do.
  O que mais aumenta sua angstia  que no entende nada de camelos. No tem a menor idia de como seja um camelo gordo. Ou magro. Estuda-os, tentando descobrir quanta carne h por baixo daquele plo que mais parece um tapete velho e esfrangalhado jogado sobre a pele spera. Apalpa-os por desencargo de conscincia, olha para as corcovas, desconfiando que ali est o segredo do peso. Mas continua cheia de incertezas. Apesar de tanta anlise, a nica coisa de que consegue se certificar  que camelo tem um cheiro brabo, que leva um tempo para sair das mos.
  Depois da conversa daquela noite, o homem azul nunca mais tocou no assunto. Teria dito a verdade? Ana no ousa perguntar. Observa-o quando vai beber nas fogueiras dos outros homens azuis, gesticulando e falando alto como fez aquela noite. O v de vez em quando conversar com o dono dos camelos. No o perde de vista. Mas em venda ou casamento nunca mais se falou. E Ana se consola calculando que, quanto mais a caravana anda, mais possibilidades existem dos camelos emagrecerem.


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 Fim da Primeira Parte